Anvisa autoriza estudo clínico da polilaminina para lesão medular

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da primeira fase de estudos clínicos em humanos da polilaminina, um medicamento experimental voltado ao tratamento de lesão medular. A substância é resultado de quase três décadas de pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e passa agora a ser testada em um protocolo clínico formal, passo essencial para avaliar sua segurança e viabilidade terapêutica.

Liberação marca avanço regulatório da pesquisa

A autorização concedida pela Anvisa permite o início da fase 1 dos estudos clínicos, etapa destinada exclusivamente à avaliação da segurança do medicamento. Nesta fase inicial, serão incluídos cinco voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, que apresentem lesões completas da medula espinhal na região torácica, entre as vértebras T2 e T10, ocorridas há menos de 72 horas e com indicação cirúrgica.

Pacientes com lesões crônicas não poderão participar. Os locais onde os estudos serão conduzidos ainda estão em definição, de acordo com a agência reguladora. Caso os resultados de segurança sejam satisfatórios, o medicamento poderá avançar para as fases 2 e 3, destinadas à avaliação de eficácia clínica.

Parceria com a indústria farmacêutica

Para viabilizar a transição do ambiente acadêmico para o clínico, a formulação do medicamento passou a ser desenvolvida em parceria com o laboratório Cristália, que também será o patrocinador dos estudos. Diferentemente das versões utilizadas em testes anteriores, a pesquisa clínica utilizará uma formulação comercial padronizada, requisito fundamental para avaliação regulatória.

Segundo a Anvisa, todo o processo foi acompanhado por reuniões técnicas e orientações regulatórias desde o pedido inicial, protocolado ainda no final de 2022. Os ajustes realizados garantiram o atendimento aos critérios exigidos para pesquisas clínicas no país.

Expectativa de avanço acelerado

A pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo projeto e chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, avalia que o cronograma pode ser mais rápido do que o habitual. Segundo ela, a gravidade da lesão medular, aliada à ausência de alternativas terapêuticas eficazes, pode permitir uma análise regulatória diferenciada no futuro.

A expectativa da equipe é que a fase 1 seja iniciada em cerca de um mês e concluída rapidamente, dado o número reduzido de participantes. Caso os dados de segurança sejam positivos, a fase 2 poderá começar em menos de um ano. Há ainda a possibilidade de uma aprovação excepcional antes da conclusão da fase 3, prevista em situações de doenças raras e graves.

Judicialização e importância do estudo clínico

Antes da liberação oficial, pacientes com lesão medular recorreram à Justiça para obter acesso à polilaminina, resultando em decisões que obrigaram sua aplicação fora de protocolos clínicos. De acordo com a pesquisadora, essas situações dificultaram o acompanhamento adequado e a coleta de dados exigidos pela Anvisa.

Com a autorização formal, os pesquisadores poderão concentrar esforços em um estudo estruturado, com monitoramento adequado, proteção aos participantes e geração de evidências científicas consistentes.

O que é a polilaminina

A polilaminina é uma substância derivada da laminina, proteína isolada de placentas e presente naturalmente na matriz extracelular. Entre suas funções biológicas está a regeneração de axônios, estruturas dos neurônios responsáveis pela transmissão de sinais entre o cérebro e os músculos, frequentemente danificadas em lesões medulares.

Nos testes preliminares, realizados entre 2018 e 2021, a substância foi aplicada em cães e em oito voluntários humanos na fase aguda da lesão. Os resultados foram variados, com registros de recuperação completa dos movimentos em alguns casos e melhora parcial em outros. Esses dados, embora promissores, não substituem a necessidade de estudos clínicos controlados.

No novo protocolo, será utilizada uma solução injetável de laminina que passa por um processo de polimerização antes do uso, formando a polilaminina. A aplicação será única e realizada diretamente na área lesionada da medula durante procedimento cirúrgico.

Prioridade dentro da Anvisa

A aprovação do estudo ocorreu no âmbito do Comitê de Inovação da Anvisa, criado para agilizar a análise de tecnologias consideradas estratégicas. Após reunião com Tatiana Sampaio, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já havia indicado que o medicamento receberia prioridade regulatória.

Segundo a agência, a polilaminina integra o conjunto de projetos estratégicos do comitê, ao lado de iniciativas como a vacina contra o vírus chikungunya e o método Wolbachia para controle de arboviroses.

A liberação da Anvisa para o início dos estudos clínicos da polilaminina representa um marco para a pesquisa brasileira em lesão medular. O avanço coloca o país em posição de destaque no desenvolvimento de terapias inovadoras para uma condição grave e sem opções eficazes de tratamento. Os próximos resultados serão decisivos para definir o futuro do medicamento e seu potencial impacto na prática clínica.

Com informações de O Globo — https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/01/05/anvisa-libera-estudo-da-polilaminina-medicamento-experimental-para-lesao-medular-da-ufrj-entenda.ghtml?_gl=1*xklrgy*_ga*OTExNzUzMTY5LjE3NTQzMDc0NTg.*_ga_NWTRTWY1TF*czE3Njc2NDE2NzQkbzMkZzEkdDE3Njc2NDE4MTMkajYwJGwwJGgw

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Augusto

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