Mexiletina e arritmias ventriculares: qual é o papel atual desse antiarrítmico?

O tratamento das arritmias ventriculares passou por mudanças profundas nas últimas décadas. O desenvolvimento de desfibriladores implantáveis e a expansão da ablação por cateter reduziram a dependência de antiarrítmicos, levando muitos fármacos clássicos a perder espaço. Mesmo assim, um grupo significativo de pacientes ainda necessita de suporte farmacológico adicional. Nesse contexto, a mexiletina ressurge como alternativa útil em situações específicas, apesar de seu uso reduzido e das limitações regulatórias.

Mexiletina: origem, características e redescoberta clínica

Desenvolvida no fim da década de 1960, a mexiletina consolidou sua reputação ao demonstrar eficácia na supressão de arritmias ventriculares, sobretudo após infarto ou intoxicação digitálica. Por muitos anos, apresentou desempenho consistente e aceitável perfil de segurança em diferentes perfis de pacientes.

Com o tempo, seu uso em cardiologia diminuiu, enquanto outras áreas médicas passaram a adotá-la com maior frequência. Hoje, a substância figura como terapia de primeira linha para não-distrophic myotonia e apresenta benefícios no manejo de dor neuropática. A retirada comercial do Mexitil na Europa e sua posterior reintrodução restrita por meio do Namuscla limitaram o acesso ao medicamento para fins cardíacos, que depende majoritariamente de importações de países como Canadá e Japão.

Mecanismos farmacológicos e impacto eletrofisiológico

A mexiletina pertence à classe IB dos antiarrítmicos e atua bloqueando canais rápidos de sódio nos cardiomiócitos. Sua afinidade por canais abertos e inativados reduz a excitabilidade e desacelera a condução elétrica, sobretudo em células ventriculares.

O fármaco destaca-se pela rápida dissociação dos canais, o que resulta em impacto mínimo em ritmos normais e maior efeito durante frequências elevadas. Ao inibir o influxo de sódio tardio, encurta a duração do potencial de ação e modifica o período refratário. A droga exerce pouca influência sobre canais de potássio e apresenta maior eficácia em tecido isquêmico, fenômeno já observado experimentalmente com a lidocaína.

Apesar de relatos divergentes sobre impacto hemodinâmico, estudos clínicos sugerem que a mexiletina tende a preservar variáveis como frequência cardíaca, pressão arterial e função sistólica, exceto em casos avançados de insuficiência cardíaca.

Farmacocinética e metabolismo

Administrada por via oral, a mexiletina apresenta alta biodisponibilidade, com absorção superior a 90%. Sua concentração máxima ocorre entre duas e quatro horas após a ingestão, enquanto o estado de equilíbrio é alcançado após cerca de cinco dias.

O metabolismo hepático é responsável pela maior parte de sua eliminação, com meia-vida entre oito e dezesseis horas. Na presença de cirrose hepática, recomenda-se importante redução posológica, enquanto a insuficiência renal não exige ajustes.

Aplicações clínicas: do PVC ao tratamento de síndromes canalopatias

Os primeiros estudos documentaram reduções expressivas na carga de extrassístoles ventriculares. No entanto, essa indicação perdeu relevância diante do avanço da ablação e da adoção de outros antiarrítmicos.

Em casos de taquicardia ou fibrilação ventricular recorrente, a mexiletina foi testada em pacientes refratários a terapias convencionais. Embora tenha demonstrado benefício em situações selecionadas, seu papel atual é restrito devido à superioridade de métodos como o implante de desfibriladores e a ablação, como evidenciado pelo estudo VANISH.

A área em que a mexiletina mantém maior protagonismo é a síndrome do QT longo, especialmente o subtipo LQTS3, relacionado a mutações no gene SCN5A. A capacidade do fármaco de reduzir o intervalo QT e diminuir eventos arrítmicos foi comprovada tanto em modelos experimentais quanto em estudos clínicos. Evidências recentes ampliam seu potencial, sugerindo benefícios também em mutações do tipo LQTS2 e em situações de prolongamento adquirido do QT.

Segurança, interações e limitações de uso

Os efeitos adversos mais frequentes envolvem náuseas, desconforto abdominal, tremores e tontura. A incidência tende a aumentar com elevação da dose. Reações hematológicas são raras, enquanto complicações cardíacas relevantes são incomuns.

A mexiletina apresenta interações com medicamentos capazes de alterar sua absorção ou metabolização hepática, como cimetidina, rifampicina, fenitoína e isoniazida. Contraindicações formais incluem bloqueios atrioventriculares avançados e hipersensibilidade ao medicamento.

Conclusão

Mesmo diante do fortalecimento de terapias invasivas, a mexiletina preserva utilidade em nichos específicos da eletrofisiologia. Seu emprego é mais consistente em pacientes com LQTS3 e em casos de arritmias ventriculares refratárias a ablação e a antiarrítmicos de outras classes. Embora seu impacto seja limitado, trata-se de uma opção valiosa quando estratégias convencionais não são suficientes. Evidências adicionais poderão definir com maior precisão os perfis de pacientes que mais se beneficiam da terapia.

Com informações de  Springer Nature Link — https://link.springer.com/article/10.1007/s00392-024-02383-9

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