O transtorno por uso de álcool (TUA) permanece como um desafio relevante de saúde pública. Em 2023, 28,9 milhões de pessoas nos Estados Unidos, o equivalente a 10,2% da população com 12 anos ou mais, conviviam com a condição. Embora existam medicamentos aprovados e intervenções psicossociais consolidadas, parte dos pacientes não responde adequadamente. Diante disso, cresce o interesse por novas estratégias terapêuticas que ampliam a visão do TUA como uma doença que envolve o cérebro e o intestino.
Tratamentos atuais: eficácia comprovada, opções limitadas
Atualmente, a Food and Drug Administration aprovou três medicamentos para auxiliar na prevenção de recaídas no TUA:
- Naltrexona: reduz o desejo pelo álcool ao bloquear receptores opioides ligados à recompensa.
- Dissulfiram: provoca reações físicas adversas quando o álcool é ingerido.
- Acamprosato: atua na modulação de alterações cerebrais associadas ao uso crônico e pode aliviar sintomas de abstinência.
Essas terapias, combinadas a tratamentos comportamentais e grupos de apoio, beneficiam muitos pacientes. Ainda assim, especialistas reconhecem que apenas três opções farmacológicas são insuficientes para contemplar a diversidade de perfis clínicos do TUA.
Agonistas do GLP-1: impacto no sistema de recompensa
Os agonistas do receptor do GLP-1, amplamente utilizados no diabetes e na obesidade, passaram a chamar atenção no campo das dependências. Esses fármacos modulam vias cerebrais de recompensa, envolvidas no desejo, na motivação e nos comportamentos compulsivos.
- Estudo observacional (Addiction, out/2024): redução de 50% nos episódios de intoxicação grave em indivíduos com TUA que utilizaram agonistas do GLP-1.
- Coorte nacional (JAMA Psychiatry, nov/2024): associação entre semaglutida e liraglutida e menor risco de hospitalizações relacionadas ao TUA.
- Revisão sistemática (eClinical Medicine, nov/2024): evidências sugerem redução do consumo de álcool e melhora de desfechos em subgrupos específicos.
Esses achados reforçam o potencial dos GLP-1 como terapia complementar, ainda em investigação clínica.
Medicina de precisão: quem pode se beneficiar mais
A análise de diferenças individuais de resposta pode direcionar a medicina de precisão no TUA. Indivíduos com disfunções metabólicas associadas parecem apresentar maior benefício potencial, o que abre espaço para tratamentos personalizados, em vez de abordagens padronizadas.
Microbiota intestinal e transplante fecal
O transplante de microbiota fecal (TMF) surge como outra frente inovadora. O TUA está associado a desequilíbrios da microbiota intestinal, agravados pela cirrose e pela doença hepática associada ao álcool. O consumo crônico reduz a diversidade bacteriana e favorece microrganismos prejudiciais.
O estudo IMPACT, patrocinado pelos National Institutes of Health, avalia o TMF em pacientes com TUA sem resposta às terapias tradicionais. Os participantes recebem cápsulas com microbiota saudável ou placebo.
- Estudo de fase 1 (Hepatology):
- Redução do desejo por álcool em 9 de 10 participantes tratados.
- Menor consumo após 15 dias.
- Menos eventos relacionados ao TUA ao longo de seis meses.
Além disso, o TMF apresenta um diferencial prático: aplicação pontual, realizada uma ou duas vezes, em vez de tratamento contínuo.
Integração de cuidados e mudança de paradigma
Especialistas ressaltam que GLP-1 e TMF ainda não substituem as terapias aprovadas, mas representam novas direções promissoras. Ensaios clínicos randomizados seguem em andamento para confirmar segurança e eficácia.
Ao ampliar o foco para o eixo cérebro-intestino, essas pesquisas contribuem para reduzir o estigma do TUA, reforçando que se trata de uma doença médica complexa, e não de falhas de caráter ou comportamento.
Conclusão
As investigações com agonistas do GLP-1 e transplante de microbiota fecal marcam um novo momento na pesquisa sobre o transtorno por uso de álcool. Embora ainda em fase de validação clínica, os resultados iniciais indicam potencial para complementar tratamentos existentes, ampliar opções terapêuticas e promover uma abordagem mais integrada e baseada em evidências.
Com informações do Medscape — https://portugues.medscape.com/verartigo/6512215#vp_1
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