Purinethol (mercaptopurina): análogo de purina oral na manutenção da leucemia linfoblástica aguda

Resumo rápido

  • O Purinethol, da Aspen, é a mercaptopurina (6-MP) em comprimidos de 50 mg, antimetabólito análogo das purinas, com registro ativo na ANVISA (1.3764.0133) e comercializado em 2025, segundo a CMED.
  • Nos Estados Unidos, a indicação é a leucemia linfoblástica aguda (LLA), na quimioterapia combinada de manutenção; na União Europeia, a suspensão oral autorizada pela EMA também é indicada na LLA.
  • A dose americana é de 1,5 a 2,5 mg/kg por dia, guiada pelo hemograma; com duas cópias alteradas de TPMT ou de NUDT15, a dose costuma cair para 10% ou menos.
  • Os rótulos americanos não têm quadro de advertência em destaque; os riscos centrais são mielossupressão, lesão do fígado, imunossupressão e dano ao feto.
  • O SUS fornece o comprimido, e os planos o cobrem. A suspensão oral de 20 mg/mL, pensada para crianças pequenas, não tem registro no Brasil: só ela é caso de importação.

O que é Purinethol (mercaptopurina)?

Purinethol é a marca da mercaptopurina (6-mercaptopurina ou 6-MP), antimetabólito análogo das purinas, de uso oral. A mercaptopurina também é comercializada como Purixan e Xaluprine, a depender do país. No Brasil, o único registro ativo do fármaco é o do Purinethol 50 mg (1.3764.0133, Aspen Pharma), fabricado na Alemanha; os registros antigos da Glaxo Wellcome e da GlaxoSmithKline estão inativos.

A FDA aprovou o Purinethol em 11/09/1953 (NDA 009053) e, em 28/04/2014, uma suspensão oral de 20 mg/mL (NDA 205919). Na União Europeia, a suspensão é autorizada desde 09/03/2012 (EMEA/H/C/002022, Lipomed GmbH); ao avaliá-la, a agência europeia registrou que o comprimido de 50 mg, então a única forma autorizada, dificultava ajustar a dose em crianças menores.

Mecanismo de ação

Pró-fármaco, a mercaptopurina é convertida dentro das células em nucleotídeos de tioguanina (TGN), que se incorporam ao DNA e ao RNA, param o ciclo celular e bloqueiam a síntese de purinas. A TPMT e a xantina oxidase a inativam, e a NUDT15 degrada os metabólitos ativos: por isso, deficiência hereditária de TPMT ou de NUDT15 eleva a toxicidade, e o alopurinol, que bloqueia a xantina oxidase, obriga a reduzir a dose.

Indicações

Nos Estados Unidos, o Purinethol (adultos e crianças) e a suspensão são indicados na LLA, como parte de esquema de quimioterapia combinada de manutenção. Na União Europeia, a suspensão é indicada na LLA de adultos, adolescentes e crianças. No Brasil, a ANVISA descreveu o Purinethol, em voto de 2021, como medicamento de referência para leucemia aguda em adultos e crianças.

A doença inflamatória intestinal aparece nos rótulos americanos e na bula europeia só como uso não aprovado. Nos últimos 24 meses, as revisões dos rótulos americanos trataram apenas de segurança, sem indicação nova.

Evidências clínicas

UK ALL97 e CCG-1952: mercaptopurina contra tioguanina

No UK ALL97, com 1.498 crianças, trocar a mercaptopurina pela tioguanina não mudou a sobrevida livre de eventos nem a global (seguimento mediano de 6 anos): houve menos recaídas isoladas no sistema nervoso central, mas mais mortes em remissão e doença veno-oclusiva do fígado em 11% de quem recebeu tioguanina. No CCG-1952, com 2.027 crianças de risco padrão, a sobrevida livre de eventos em 7 anos foi maior com tioguanina (84,1% contra 79,0%), sem diferença na global, mas 25% de quem a recebeu teve doença veno-oclusiva ou queda desproporcional de plaquetas e passou para a mercaptopurina. Para os autores do UK ALL97, a mercaptopurina deve seguir como tiopurina de escolha; no CCG-1952, a toxicidade impediu o uso prolongado da tioguanina.

COG AALL03N1: adesão ao comprimido e recaída

Em 742 crianças e jovens com LLA, com cada abertura do frasco registrada por sistema eletrônico, abrir o frasco em menos de 95% dos dias prescritos se associou a risco de recaída 2,7 vezes maior (IC 95% 1,3–5,6), em seguimento mediano de 6,7 anos.

TPMT e NUDT15: por que a dose varia tanto

Segundo o rótulo americano, num estudo com 1.028 crianças, com uma cópia alterada de TPMT ou de NUDT15, a dose tolerada foi de 50% a 90% da planejada; uma de cada gene, de 30% a 50%; e duas do mesmo gene, de 5% a 10%. Cerca de 0,3% das pessoas de ancestralidade europeia ou africana têm pouca ou nenhuma atividade de TPMT; entre asiáticos do leste, 2% têm duas cópias alteradas de NUDT15. Num estudo genético de 2015, com o genótipo TT de NUDT15, a dose tolerada foi de 8,3% da planejada, e a variante foi mais comum em asiáticos do leste e hispânicos.

Posologia e administração

Uso oral e diário, em protocolos conduzidos por equipe com experiência em LLA. Pelos rótulos americanos e pela bula europeia:

  • Dose: 1,5 a 2,5 mg/kg (50 a 75 mg/m²) uma vez ao dia nos Estados Unidos; de 25 a 75 mg/m² por dia na União Europeia, conforme a fase e o protocolo; ajuste pelos neutrófilos e pela toxicidade.
  • Horário e alimento: sempre no mesmo padrão em relação à comida; a bula europeia indica a dose à noite e ao menos 1 hora antes ou 2 horas depois de leite e derivados.
  • Alopurinol: reduzir a mercaptopurina para um terço a um quarto da dose (EUA) ou para um quarto (Europa).
  • Rins e fígado: menor dose inicial; com depuração renal abaixo de 50 mL/min, o rótulo da suspensão admite dose a cada 36 a 48 horas.

Comprimido ou suspensão oral: o que muda

Pelo rótulo americano do Purinethol, a dose recomendada não é alcançável abaixo de 17 kg com o comprimido de 50 mg, que não deve ser dado a quem não consegue engoli-lo. A suspensão de 20 mg/mL vem com seringas de 1 e 5 mL e vale 8 semanas (EUA) ou 56 dias (Europa) após aberta. A troca exige cuidado: num estudo com 60 adultos, o pico de concentração da suspensão foi 39% maior que o do comprimido, com exposição total equivalente, e a bula europeia pede hemograma mais frequente ao trocar.

Segurança

Os rótulos americanos não têm quadro de advertência em destaque (tarja) nem contraindicações; na União Europeia, a suspensão é contraindicada na hipersensibilidade e com a vacina da febre amarela. Nos estudos, a reação mais comum (mais de 20%) foi a mielossupressão; de 5% a 20% tiveram falta de apetite, náusea, vômito, diarreia, mal-estar e erupção na pele.

Advertências, interações e gravidez

  • Sangue e fígado: hemograma regular; transaminases, fosfatase alcalina e bilirrubina semanais no início e mensais depois, pois há mortes por necrose hepática.
  • Imunidade e tumores: resposta menor às vacinas e risco com vacinas de vírus vivo; linfoma hepatoesplênico de células T, fatal, no uso não aprovado para doença inflamatória intestinal; síndrome de ativação macrofágica exige suspender o remédio.
  • Crianças: hipoglicemia sintomática, sobretudo abaixo de 6 anos ou com baixo índice de massa corporal.
  • Interações: alopurinol, varfarina (monitorar o INR), sulfametoxazol-trimetoprima, aminossalicilatos e metotrexato em dose alta, que eleva a exposição à mercaptopurina em até 93%.
  • Gravidez e amamentação: risco de dano fetal e de aborto; contracepção até 6 meses após a última dose (mulheres) ou 3 meses (homens); não amamentar durante o uso e por 1 semana depois.

Situação regulatória e como funciona o acesso

O Purinethol tem registro ativo (1.3764.0133, Aspen Pharma, vencimento em 02/2028; dados abertos da ANVISA de 09/10/2026), e o frasco com 25 comprimidos consta como comercializado em 2025 na lista da CMED de 09/10/2026. A mercaptopurina não está na Portaria SVS/MS 344/1998 (Anexo I atualizado pela RDC nº 1.036/2026). Para o comprimido, a aquisição é nacional; a importação só se aplica à suspensão oral.

Risco de falta e abastecimento emergencial (2021–2023)

Em 15/12/2021, um voto da Diretoria Colegiada da ANVISA registrou que o Purinethol, único produto com mercaptopurina no mercado, precisava trocar um excipiente, com estudo de bioequivalência, e que a fiscalização considerou provável o desabastecimento, com alto risco à saúde pública. Em 14/11/2022, carta divulgada pela ANVISA informou que a nova formulação não fora aprovada, porque o pico de concentração ficou acima da faixa aceita, e que a agência autorizou, em caráter excepcional, a importação de 23.000 unidades do Purinethol alemão para abastecimento emergencial, com monitoramento dos pacientes. A formulação foi aprovada em 14/04/2023, também em caráter excepcional, com orientação de ajustar a dose se preciso.

Comprimido: SUS e planos de saúde

No SUS, a mercaptopurina 50 mg está no elenco do Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), criado pela Portaria GM/MS nº 8.477/2025, com aquisição descentralizada: o serviço habilitado em oncologia compra e dispensa o comprimido (elenco de 02/09/2026). Nos planos, a Lei 9.656/1998 inclui os antineoplásicos orais de uso domiciliar, e a diretriz 64 da ANS lista a mercaptopurina na LLA e nas leucemias mieloides aguda e crônica. Negativa, aqui, é questão de custeio.

Suspensão oral: sem registro no Brasil

Não há suspensão de mercaptopurina registrada na ANVISA nem na lista da CMED. Quando a equipe entende que o comprimido não atende, como em crianças abaixo de 17 kg ou que não engolem, o acesso à suspensão de 20 mg/mL passa pela importação para uso próprio, em nome do paciente, com receita médica.

Compra judicial: só para a suspensão oral

No Tema 500 da repercussão geral (RE 657.718, julgado em 22/05/2019), o STF definiu que, como regra, a falta de registro na ANVISA impede o fornecimento de medicamento por decisão judicial. A exceção depende de mora irrazoável da agência na análise do pedido de registro (prazo superior ao da Lei 13.411/2016) e de três requisitos: pedido de registro no Brasil (salvo medicamentos órfãos para doenças raras e ultrarraras), registro em renomadas agências reguladoras no exterior e inexistência de substituto terapêutico registrado no país; a ação é proposta contra a União. Pelo Tema 990 do STJ, os planos de saúde não são obrigados a fornecer medicamento não registrado pela ANVISA.

Aqui, pesa o substituto: o comprimido registrado tem o mesmo princípio ativo e está no SUS, e o relatório médico precisa explicar por que ele não serve àquela criança. Cada caso exige orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado. É comum a ação trazer orçamentos de fornecedores, e a Medicsupply pode fornecer a cotação da importação.

Como a Medicsupply conduz a importação

Para a suspensão oral, a Medicsupply atua como assessoria de importação, sem vender medicamentos: conversa inicial com um especialista, orientação sobre as normas da ANVISA e apoio nos documentos exigidos, fornecedores licenciados no país de origem, com medicamento rastreável até o fabricante, e acompanhamento até a entrega. O processo corre sempre em nome do paciente, começa pela receita médica e fica documentado do início ao fim. Prazo médio por origem:

Origem Prazo médio
EUA (FDA) 10 dias
Canadá (Health Canada) 17 dias
Europa (EMA) 16 dias úteis
Ásia: Índia, China e Japão (CDSCO, NMPA, PMDA) 16 dias úteis

Os prazos variam conforme a disponibilidade do fornecedor, a modalidade de importação e a eventual necessidade de autorização excepcional; nenhum prazo é prometido a um caso específico, e a confirmação cabe ao time de compras.

  • Modalidades: remessa expressa internacional, na maioria dos casos; DSI, que está sendo substituída; e DUIMP, do Siscomex, que unifica DI, LI e DSI e permite anuências em paralelo.
  • Documentos: fatura pró-forma, fatura comercial, romaneio de carga, conhecimento aéreo (AWB) e declaração de importação (DIR, DSI ou DUIMP), sempre em nome do paciente.
  • Valor: preço do fornecedor, câmbio do dia, impostos, taxas alfandegárias e frete; quando há equivalente nacional, compara-se com a tabela CMED.
  • Alcance e conservação: fornecedores sob FDA, EMA, CDSCO, NMPA, PMDA e Health Canada, sem canal na América do Sul; pelo rótulo americano, a suspensão fica entre 15 e 25 °C, sem refrigeração.

Perguntas Frequentes

Preciso importar a mercaptopurina?

O comprimido, em regra, não: tem registro ativo, é comercializado no país e está no SUS e nos planos. Só a suspensão oral, sem registro no Brasil, depende de importação com receita.

A mercaptopurina pode ser tomada com leite?

Pela bula europeia, não: leite e derivados contêm xantina oxidase, que degrada o fármaco, e a dose deve ficar ao menos 1 hora antes ou 2 horas depois deles.

Por que o médico pede exame de TPMT ou NUDT15?

Variantes hereditárias dessas enzimas fazem os metabólitos ativos se acumularem e elevam o risco de mielossupressão grave. O exame orienta a dose, mas não substitui o hemograma.

A mercaptopurina serve para doença inflamatória intestinal?

Não é uso aprovado nas bulas americana e europeia, e é dele que vem o alerta de linfoma hepatoesplênico de células T.

Conclusão

A mercaptopurina é componente padrão da manutenção da LLA infantil, com dose guiada pelo hemograma e, se preciso, por TPMT e NUDT15; nos estudos comparativos, a tioguanina não a substituiu por causa da toxicidade hepática. No Brasil, o comprimido chega pelo SUS ou pelo plano; só a suspensão oral, útil para crianças pequenas, depende de importação com receita, e a Medicsupply pode assessorar esse processo.

Fontes

  1. FDA, rótulo de Purixan (mercaptopurina) suspensão oral (DailyMed), Nova Laboratories, revisão 07/2026; setid 9fd27952-7787-47d9-b6cf-7af2dc38217b; NDA 205919, aprovação em 28/04/2014.
  2. FDA, rótulo de Purinethol (mercaptopurina) comprimidos, Stason Pharmaceuticals, revisão 07/2024; NDA 009053, aprovação em 11/09/1953.
  3. EMA — Xaluprine (mercaptopurina), EPAR, EMEA/H/C/002022, informação do produto, Lipomed GmbH.
  4. ANVISA — Dados abertos de medicamentos, 09/10/2026: Purinethol 1.3764.0133 (Aspen Pharma), ativo, vencimento 02/2028; 1.0025.0063 e 1.0107.0211, inativos; RDC nº 1.036, de 09/07/2026.
  5. CMED/ANVISA — Lista de preços de medicamentos (PMC), 09/10/2026: Purinethol 50 mg, 25 comprimidos, comercializado em 2025.
  6. ANVISA — Voto nº 229/2021/SEI/DIRE2 (15/12/2021) e cartas aos profissionais de saúde sobre o Purinethol (14/11/2022 e 28/06/2023).
  7. Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 8.477, de 20/10/2025 (AF-Onco), e elenco de medicamentos do AF-Onco, atualizado em 02/09/2026.
  8. ANS — Rol, Anexo II (RN nº 465/2021, até a RN nº 680/2026), diretriz de utilização 64; Lei nº 9.656/1998, art. 12.
  9. Vora A et al., Lancet, 2006;368(9544):1339-1348. PMID 17046466 (UK ALL97; ISRCTN 26727615).
  10. Stork LC et al., Blood, 2010;115(14):2740-2748. PMID 20124218 (CCG-1952; ClinicalTrials.gov NCT00002744).
  11. Bhatia S et al., JAMA Oncol, 2015;1(3):287-295. PMID 26181173 (COG AALL03N1; ClinicalTrials.gov NCT00268528).
  12. Yang JJ et al., J Clin Oncol, 2015;33(11):1235-1242. PMID 25624441.
  13. STF — Tema 500, RE 657.718 (22/05/2019); STJ — Tema 990, REsp 1.712.163/SP (2018).

Sobre a Medicsupply

Medicsupply é uma empresa brasileira especializada em assessoria para importação de medicamentos, equipamentos e produtos médico-hospitalares, com mais de 34 anos de atuação no mercado.

Precisa de mais informações sobre este medicamento?

Nossa equipe especializada está pronta para ajudar. Fale conosco pelo WhatsApp.


💬 Fale pelo WhatsApp

Fale com nossa equipe pelo WhatsApp

Preencha nome e WhatsApp para iniciar o atendimento sobre este medicamento.

Preencha os campos para liberar

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Purinethol (mercaptopurina): análogo de purina oral na manutenção da leucemia linfoblástica aguda

GOSTOU DESTE ARTIGO? COMPARTILHE!

Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe

DEIXE UM COMENTÁRIO

Rolar para cima