Resumo rápido
- Esbriet é a marca da pirfenidona, antifibrótico oral indicado para a fibrose pulmonar idiopática (FPI), única indicação nos rótulos americano e europeu.
- No Brasil, o registro do Esbriet foi cancelado por caducidade em agosto de 2026, mas a pirfenidona segue registrada por outros fabricantes, em cápsulas e comprimidos.
- No estudo de fase 3 ASCEND, a queda de 10 pontos ou mais na capacidade vital forçada (CVF) prevista, ou a morte, em 52 semanas ocorreu em 17%, contra 32% com placebo.
- O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque nem contraindicações, mas exige exames do fígado durante o uso; a fotossensibilidade pede proteção solar diária.
- O SUS não incorporou a pirfenidona (Portaria SCTIE/MS nº 88/2018), e a lei dos planos deixa o medicamento de uso domiciliar fora da cobertura mínima, salvo exceções. Negativas são questão de custeio.
O que é Esbriet (pirfenidona)?
Esbriet é o nome comercial da pirfenidona, molécula da classe das piridonas, em cápsulas de 267 mg e comprimidos de 267 e 801 mg (na União Europeia, só comprimidos, inclusive o de 534 mg). A pirfenidona também é comercializada como Egurinel, no Brasil.
A FDA aprovou as cápsulas em 15/10/2014 (NDA 022535) e os comprimidos em 11/01/2017 (NDA 208780), hoje em nome da Legacy Pharma. Na União Europeia, o Esbriet é autorizado desde 28/02/2011 (EMEA/H/C/002154), com a H.A.C. Pharma, da França, como titular atual.
No Brasil, o registro do Esbriet (1.0100.0663, da Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A.), que vencia em 06/2026, foi cancelado por caducidade, aplicada quando a revalidação não é pedida no prazo (Resolução-RE nº 2.973, DOU de 03/08/2026). A pirfenidona não deve ser confundida com o nintedanibe (Ofev), outro medicamento oral para a FPI, que inibe tirosina-quinases.
Mecanismo de ação
O mecanismo não está totalmente estabelecido. Em laboratório e em modelos animais de fibrose pulmonar, a pirfenidona reduziu o acúmulo de células inflamatórias e atenuou a proliferação de fibroblastos (células que formam o tecido cicatricial), a produção de proteínas e citocinas ligadas à fibrose e o acúmulo de matriz extracelular em resposta a fatores de crescimento como o TGF-beta e o PDGF.
De 70% a 80% da dose é metabolizada pela enzima hepática CYP1A2, e a meia-vida média é de cerca de 3 horas em voluntários saudáveis. O cigarro induz essa enzima: nos fumantes, a exposição (área sob a curva) foi 46% da dos não fumantes. A fluvoxamina, que a inibe, aumentou a exposição em cerca de 4 vezes nos não fumantes.
Indicações
Nos rótulos americano e europeu, a única indicação é a FPI, a mesma do registro brasileiro do Esbriet. Nos Estados Unidos, o nintedanibe (Ofev) e o nerandomilaste (Jascayd) também são indicados para outras fibroses pulmonares progressivas; a pirfenidona, não. Na União Europeia, a Roche retirou em 19/05/2021 o pedido de extensão para a doença pulmonar intersticial não classificável, que tinha avaliação provisória desfavorável da EMA.
Estados Unidos (FDA)
Tratamento da FPI, sem qualificação de gravidade. Segurança e eficácia em crianças e adolescentes não foram estabelecidas. Dos tratados nos estudos, 67% tinham 65 anos ou mais, sem diferença geral de segurança ou eficácia e sem ajuste de dose pela idade.
União Europeia (EMA)
Adultos com FPI. Até 2023, o texto se limitava à forma leve a moderada; a variação II/0074 (decisão da Comissão Europeia de 24/03/2023) retirou a restrição, com base no estudo de fase 2b MA29957, em FPI avançada com risco de hipertensão pulmonar, e em novas análises dos estudos de registro. O tratamento deve ser iniciado e acompanhado por especialista em FPI.
Brasil (ANVISA)
A indicação aprovada do Esbriet era o tratamento da FPI, como registra o relatório da Conitec de 2018, e a CMED classifica as cápsulas de pirfenidona como produtos para FPI. Os estudos de registro incluíram adultos de 40 a 80 anos (média de 67), com CVF de pelo menos 50% do previsto e difusão do monóxido de carbono (DLCO) de pelo menos 30% (ASCEND) ou 35% (CAPACITY).
Evidências clínicas
Três estudos de fase 3, randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, compararam 2.403 mg/dia (623 pacientes) com placebo (624); um quarto, japonês, usou 1.800 e 1.200 mg/dia. O desfecho principal dos três foi a variação da CVF prevista.
| Estudo | Pirfenidona e placebo | Duração | Resultado principal |
|---|---|---|---|
| CAPACITY 004 | 174 e 174 (mais 87 com 1.197 mg/dia) | 72 semanas | Queda da CVF prevista: 8,0% contra 12,4% (p=0,001) |
| CAPACITY 006 | 171 e 173 | 72 semanas | Queda de 9,0% contra 9,6%, sem diferença (p=0,501) |
| ASCEND | 278 e 277 | 52 semanas | Queda de 10 pontos ou mais, ou morte: 17% contra 32% |
CAPACITY (estudos 004 e 006)
Dois estudos simultâneos (NCT00287716 e NCT00287729), de no mínimo 72 semanas. No 004 (435 pacientes), a diferença na CVF prevista foi de 4,4% (IC 95% 0,7 a 9,1), e a queda de 10% ou mais ocorreu em 20% contra 35%. No 006 (344 pacientes), não houve diferença na semana 72, embora o efeito tenha aparecido até a semana 48 (p=0,005).
ASCEND
Estudo de 52 semanas (NCT01366209) com 555 pacientes. Ficaram sem queda da CVF prevista 23%, contra 10% com placebo; em volume, a CVF caiu, em média, 235 mL contra 428 mL. A sobrevida livre de progressão melhorou (p<0,001), e a distância na caminhada de 6 minutos caiu menos (p=0,036). Falta de ar e morte por qualquer causa não diferiram de forma significativa.
Na análise combinada pré-especificada dos três estudos, a morte por qualquer causa em 12 meses foi de 3,5% (22 de 623), contra 6,7% (42 de 624) com placebo (razão de risco 0,52; IC 95% 0,31–0,87), pelo resumo europeu. A FDA, ao avaliar a mortalidade em todo o seguimento, como análise exploratória, não viu diferença estatisticamente significativa.
Posologia e administração
Uso oral, com alimento, nos mesmos horários todos os dias. Pelos rótulos da FDA e da União Europeia:
- Escalonamento: dias 1 a 7, 267 mg três vezes ao dia; dias 8 a 14, 534 mg três vezes ao dia; a partir do dia 15, 801 mg três vezes ao dia (2.403 mg/dia), a dose de manutenção. Acima de 2.403 mg/dia, não é recomendado.
- Com alimento: a comida reduz o pico no sangue em cerca de 49% e, nos estudos de absorção, diminuiu náusea e tontura.
- Dose esquecida: não tomar duas doses de uma vez nem mais de três por dia. Após 14 dias ou mais sem o medicamento, refazer o escalonamento; com pausa menor, retomar a dose anterior.
- Exames: ALT, AST e bilirrubina antes de começar, todo mês nos 6 primeiros meses e, depois, a cada 3 meses.
- Ajustes: efeitos gastrointestinais, erupção ou fotossensibilidade podem exigir redução ou pausa. Com inibidor forte da CYP1A2, como a fluvoxamina, a FDA reduz a dose para 267 mg três vezes ao dia (na União Europeia, a fluvoxamina é contraindicada); com ciprofloxacino 750 mg duas vezes ao dia, para 534 mg três vezes ao dia.
- Fígado e rins: cautela nas insuficiências hepática leve a moderada e renal; uso não recomendado (FDA) ou contraindicado (União Europeia) na insuficiência hepática grave e na diálise.
- Cigarro: parar de fumar antes e durante o tratamento.
- Conservação: 25 °C (15 a 30 °C), pelo rótulo americano.
Segurança
O rótulo americano não tem quadro de advertência em destaque nem contraindicações. Na União Europeia, são contraindicações: hipersensibilidade; história de angioedema com pirfenidona; uso de fluvoxamina; insuficiência hepática grave ou doença hepática terminal; e insuficiência renal grave (depuração abaixo de 30 mL/min) ou diálise.
Advertências principais
- Fígado: ALT ou AST a partir de 3 vezes o limite superior em 3,7% contra 0,8% com placebo; após a comercialização, houve lesão hepática grave, inclusive fatal. Elevação acima de 5 vezes, ou acima de 3 vezes com bilirrubina alta ou sintomas, leva à suspensão definitiva.
- Pele e sol: fotossensibilidade em 9% contra 1%, a maioria nos 6 primeiros meses. Síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS, incluídas no rótulo americano em 02/2023, levam à suspensão definitiva quando confirmadas.
- Estômago e intestino: eventos gastrointestinais, sobretudo náusea, diarreia, vômito e dispepsia, levaram a redução ou pausa da dose em 18,5% contra 5,8%, com maior incidência nos 3 primeiros meses.
- Outros: agranulocitose e angioedema após a comercialização; pela bula europeia, também anafilaxia, tontura e cansaço (cautela ao dirigir), perda de peso e queda do sódio no sangue.
Reações mais comuns, pelo rótulo da FDA (pirfenidona contra placebo): náusea (36% contra 16%), erupção na pele (30% contra 10%), diarreia (26% contra 20%), cansaço (26% contra 19%), dor abdominal (24% contra 15%), perda de apetite (21% contra 8%) e dispepsia (19% contra 7%). Abandonaram o tratamento por evento adverso 14,6%, contra 9,6%.
Interações, gravidez e amamentação
Devem ser evitados os inibidores fortes da CYP1A2, os indutores potentes, como a rifampicina, e o suco de toranja; amiodarona e propafenona pedem cautela. Na gestação, os dados humanos são insuficientes, e em ratos e coelhos não houve malformações; a bula europeia recomenda, por precaução, evitar o uso. Não se sabe se a pirfenidona passa para o leite humano (em ratos, passa).
Como funciona o acesso no Brasil
A marca Esbriet não tem mais registro válido, mas a pirfenidona tem. Na lista da CMED publicada em 09/10/2026, as cápsulas de 267 mg do Esbriet e do Egurinel constam como comercializadas em 2025; a da Sandoz, não. O acesso não passa por importação: a aquisição é nacional, e a questão é quem paga.
| Produto (titular) | Registro | Apresentação | Situação em 09/10/2026 |
|---|---|---|---|
| Esbriet (Roche) | 1.0100.0663 | Cápsula de 267 mg | Cancelado por caducidade (DOU de 03/08/2026) |
| Egurinel (Adium), similar | 1.2214.0114 | Cápsula de 267 mg | Ativo até 04/2030 |
| Pirfenidona (Sandoz), genérico | 1.0047.0649 | Cápsula de 267 mg | Ativo até 01/2033 |
| Pirfenidona (FURP), genérico | 1.1039.0235 | Cápsula de 267 mg | Ativo desde 07/2026, até 07/2036 |
| Esdona (Teva) | 1.5573.0075 | Comprimidos de 267 e 801 mg | Ativo desde 09/2026, até 09/2036 |
No SUS
Não incorporada. A Conitec avaliou o pedido da Roche e, em 06/12/2018, recomendou por unanimidade não incorporar a pirfenidona na FPI (Relatório de Recomendação nº 420): reconheceu o efeito na CVF, mas viu perfil de segurança desfavorável e benefício incerto em qualidade de vida, exacerbações e mortalidade. A decisão saiu na Portaria SCTIE/MS nº 88, de 24/12/2018. O nintedanibe teve a mesma decisão, e a lista de protocolos do Ministério da Saúde não traz PCDT para a FPI. O Ministério convoca fornecedores de pirfenidona 267 mg “por força de determinação judicial”, como no DOU de 16/05/2025.
Nos planos de saúde
A Lei 9.656/1998 deixa fora da cobertura mínima o medicamento para tratamento domiciliar, com exceções como os antineoplásicos orais (art. 10, VI, e art. 12). A pirfenidona é de uso oral, em casa, e não é antineoplásico. Diante de negativa do plano ou do SUS, a discussão, administrativa e, se preciso, judicial, é de custeio, não de importação. Ajudam a negativa por escrito e um relatório médico; cada caso pede orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
O Esbriet saiu do mercado brasileiro?
O registro foi cancelado por caducidade (DOU de 03/08/2026), porque a revalidação não foi pedida no prazo. A cápsula consta como comercializada em 2025 na lista da CMED, e a pirfenidona continua registrada por outros fabricantes.
Egurinel e Esbriet são o mesmo medicamento?
Têm o mesmo princípio ativo, a mesma dose e a mesma forma: pirfenidona em cápsula dura de 267 mg. O Egurinel, da Adium, é registrado na categoria de similar.
Posso tomar sol durante o tratamento?
A exposição ao sol, inclusive a lâmpadas de bronzeamento, deve ser evitada ou reduzida. O rótulo americano orienta protetor com fator 50 ou mais, roupas que protejam a pele e evitar outros medicamentos que causem fotossensibilidade.
Preciso importar a pirfenidona?
Em regra, não. Mesmo sem o Esbriet, a pirfenidona tem registros ativos e cápsula comercializada em 2025, segundo a CMED; a dificuldade costuma ser o custeio, já que o SUS não a incorporou e a lei dos planos deixa o uso domiciliar fora da cobertura mínima.
Conclusão
A pirfenidona é um antifibrótico oral para a fibrose pulmonar idiopática que reduziu a perda de função pulmonar frente ao placebo em dois dos três estudos de fase 3. Exige escalonamento da dose, tomadas com alimento, exames do fígado e proteção solar. No Brasil, a marca Esbriet perdeu o registro em 2026, mas o princípio ativo segue registrado; o acesso é questão de custeio, não de importação.
Fontes
- FDA, rótulo de Esbriet (pirfenidona) (DailyMed), Legacy Pharma USA Inc., versão de 06/2025, setid 81f17f7d-cb04-4052-8682-dd3e330210ab.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 022535 (cápsulas, 15/10/2014) e NDA 208780 (comprimidos, 11/01/2017), titular atual Legacy Pharma.
- FDA, rótulos de Ofev (nintedanibe; NDA 205832, versão de 11/2025) e Jascayd (nerandomilaste; NDA 218764, versão de 08/2026), seção de indicações.
- EMA — Esbriet, EPAR, EMEA/H/C/002154 (titular H.A.C. Pharma): resumo das características do medicamento; variação II/0074, de 24/03/2023 (estudo MA29957; ClinicalTrials.gov NCT02951429); pedido de variação II/69 retirado em 19/05/2021.
- ANVISA — Dados abertos de medicamentos, consulta em 09/10/2026: registros 1.0100.0663 (inativo), 1.2214.0114, 1.0047.0649, 1.1039.0235 e 1.5573.0075.
- ANVISA — Resolução-RE nº 2.973, de 30/07/2026 (DOU de 03/08/2026): cancelamento do registro do Esbriet por declaração de caducidade.
- ANVISA — Resolução-RE nº 3.816, de 25/09/2026 (DOU de 28/09/2026): registro do Esdona, pirfenidona 267 e 801 mg em comprimidos revestidos.
- CMED/ANVISA — Lista de preços (PMC) publicada em 09/10/2026: Esbriet e Egurinel 267 mg comercializados em 2025; Pirfenidona Sandoz, não.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 420 (dezembro de 2018) e Portaria SCTIE/MS nº 88, de 24/12/2018; Relatório nº 419 e Portaria SCTIE/MS nº 86/2018 (nintedanibe); lista de PCDT, consulta em 09/10/2026.
- Ministério da Saúde — Aviso de chamamento público por determinação judicial, DOU de 16/05/2025, seção 3, página 118.
- Lei nº 9.656, de 3 de junho de 1998, art. 10, inciso VI, e art. 12.
- Noble PW et al., Lancet, 2011;377(9779):1760-1769. PMID 21571362 (CAPACITY; ClinicalTrials.gov NCT00287716 e NCT00287729).
- King TE Jr et al., N Engl J Med, 2014;370(22):2083-2092. PMID 24836312 (ASCEND; ClinicalTrials.gov NCT01366209).
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