Resumo rápido
- O icatibanto bloqueia o receptor B2 da bradicinina, principal mediadora do inchaço nas crises de angioedema hereditário por deficiência do inibidor de C1-esterase.
- É uma injeção subcutânea de 30 mg em seringa preenchida, que pode ser autoaplicada após treinamento; em adultos, o limite é de três injeções em 24 horas, com pelo menos 6 horas entre elas.
- Nos Estados Unidos, a indicação vale para adultos a partir de 18 anos; na União Europeia e no Brasil, para adultos, adolescentes e crianças a partir de 2 anos.
- O rótulo norte-americano não traz advertência em destaque (tarja) nem contraindicações; reações no local da injeção ocorreram em 97% dos tratados nos estudos controlados por placebo.
- O Firazyr tem registro ativo na ANVISA, há genérico e similar registrados no país, e o SUS incorporou o icatibanto em 2023 para uso restrito hospitalar durante as crises.
O que é Firazyr (icatibanto)?
Firazyr é a marca do icatibanto, na forma de acetato de icatibanto, para o tratamento das crises agudas de angioedema hereditário (AEH). O icatibanto também é registrado no Brasil como Gulandaripa (similar) e como genérico acetato de icatibanto, ambos da Cipla. Trata-se de um decapeptídeo sintético, isto é, uma cadeia de dez aminoácidos, cinco deles diferentes dos que formam as proteínas humanas, com estrutura parecida com a da bradicinina. A apresentação é uma seringa preenchida com 30 mg em 3 mL (10 mg/mL), acompanhada de agulha, para aplicação sob a pele.
Nas três agências reguladoras citadas neste texto, a indicação é o tratamento das crises agudas, e não a prevenção de novos episódios.
Quem detém o registro hoje
No Brasil, o registro ativo do Firazyr (1.2627.0019) está em nome da Takeda Farmacêutica Brasil, com vencimento em dezembro de 2029; registros anteriores, em nome da Shire Farmacêutica Brasil e da Takeda Pharma, aparecem como inativos na base da ANVISA. Nos Estados Unidos, o NDA 022150 foi aprovado em 25/08/2011 e pertence à Takeda. Na União Europeia, a autorização data de 11/07/2008 e está em nome da Takeda Pharmaceuticals International AG.
Mecanismo de ação
O angioedema hereditário é uma doença genética, de herança autossômica dominante, causada pela falta ou pelo mau funcionamento do inibidor de C1-esterase (C1-INH). Essa proteína regula a cascata do fator XII e da calicreína, que termina na produção de bradicinina. A bradicinina é um vasodilatador e é considerada a responsável pelos sintomas característicos da doença: inchaço localizado, inflamação e dor. As crises atingem a pele, o trato gastrointestinal e as vias aéreas superiores e costumam durar de 2 a 5 dias.
O icatibanto é um antagonista competitivo e seletivo do receptor B2 da bradicinina, com afinidade semelhante à da própria bradicinina. Ao ocupar o receptor, impede a ligação da bradicinina e, assim, trata os sintomas da crise em curso.
Indicações
A indicação é praticamente a mesma nas três agências; o que muda é a faixa etária:
| Agência | Indicação | Faixa etária |
|---|---|---|
| FDA (EUA) | Tratamento de crises agudas de angioedema hereditário | Adultos a partir de 18 anos |
| EMA (União Europeia) | Tratamento sintomático de crises agudas de angioedema hereditário com deficiência do inibidor de C1-esterase | Adultos, adolescentes e crianças a partir de 2 anos |
| ANVISA (Brasil) | Tratamento sintomático de crises agudas de angioedema hereditário com deficiência do inibidor de C1-esterase | Adultos, adolescentes e crianças acima de 2 anos |
Nos Estados Unidos, a segurança e a eficácia abaixo de 18 anos não foram estabelecidas. Na Europa, não há esquema de dose para crianças com menos de 2 anos ou menos de 12 kg, e a bula brasileira contraindica o uso abaixo de 2 anos.
Quem é candidato
O icatibanto é destinado a pessoas com diagnóstico confirmado de AEH por deficiência do inibidor de C1-esterase que apresentam uma crise aguda. Segundo a bula europeia, a decisão de permitir a autoaplicação, ou a aplicação por um cuidador, cabe a um médico experiente no diagnóstico e no tratamento da doença.
Evidências clínicas
O programa de desenvolvimento incluiu três estudos de fase 3 randomizados e duplo-cegos, chamados FAST, feitos em adultos durante crises agudas. Os dois primeiros foram publicados juntos em 2010:
- FAST-1: icatibanto 30 mg contra placebo, em 56 pacientes. O tempo mediano até o alívio clinicamente significativo foi de 2,5 horas com icatibanto e de 4,6 horas com placebo, diferença sem significância estatística (P=0,14). Precisaram de medicação de resgate 3 pacientes do grupo icatibanto e 13 do grupo placebo; os autores apontam que esse uso precoce pode ter mascarado o benefício.
- FAST-2: icatibanto contra ácido tranexâmico oral (3 g por dia, por 2 dias), em 74 pacientes: 2,0 horas contra 12,0 horas (P<0,001).
- FAST-3 (NCT00912093): icatibanto contra placebo, em 98 adultos com idade mediana de 36 anos. Nas crises cutâneas ou abdominais, o tempo mediano até a redução de 50% dos sintomas foi de 2,0 horas contra 19,8 horas (P<0,001), e o alívio quase completo veio em 8,0 contra 36,0 horas. Usaram medicação de resgate 7% dos tratados com icatibanto e 40% dos que receberam placebo.
Nas fases abertas desses estudos, foram tratadas 987 crises de 225 pacientes, com 1.076 doses; entre as cinco primeiras crises tratadas de cada paciente, 93% receberam uma única dose, segundo o rótulo da FDA. As crises laríngeas tratadas nos estudos controlados tiveram resultados semelhantes aos das crises cutâneas e abdominais. Em um estudo aberto com 56 pacientes que aplicaram o medicamento em si mesmos, o tempo mediano até a redução de 50% dos sintomas foi de 2,6 horas.
Dados em crianças e adolescentes
Um estudo aberto, de braço único, tratou 32 pacientes de 2 a 17 anos com 0,4 mg/kg por aplicação, até o máximo de 30 mg. Entre os 22 que receberam o medicamento durante uma crise, o tempo mediano até o início do alívio foi de 1,0 hora (intervalo de confiança de 95%: 1,0 a 1,1), segundo a bula europeia.
Posologia e administração
Em adultos, a dose é de 30 mg por injeção subcutânea, de preferência na região abdominal. Se o alívio for insuficiente ou os sintomas voltarem, nova injeção de 30 mg pode ser aplicada após pelo menos 6 horas, e não se aplicam mais de três injeções em 24 horas. A injeção deve ser lenta, em pelo menos 30 segundos, com a agulha que acompanha a seringa. Nos estudos clínicos, não foram aplicadas mais de oito injeções por mês. A bula europeia dispensa ajuste de dose em insuficiência renal ou hepática.
Dose por peso em crianças e adolescentes
Na União Europeia, a dose de 2 a 17 anos segue o peso corporal:
- 12 a 25 kg: 10 mg (1,0 mL);
- 26 a 40 kg: 15 mg (1,5 mL);
- 41 a 50 kg: 20 mg (2,0 mL);
- 51 a 65 kg: 25 mg (2,5 mL);
- acima de 65 kg: 30 mg (3,0 mL).
No estudo pediátrico, foi aplicada no máximo uma injeção por crise, e não há dados sobre doses adicionais para a mesma crise nessa faixa etária. A bula brasileira, citada pela Conitec, também prevê de 10 a 30 mg conforme o peso entre 2 e 17 anos.
Autoaplicação e primeira dose
Adultos podem autoaplicar o icatibanto depois de treinados na técnica de injeção subcutânea por um profissional de saúde; de 2 a 17 anos, a aplicação é feita por um cuidador treinado. Pela bula europeia, a primeira dose de quem nunca usou o medicamento deve ser aplicada em serviço de saúde ou sob orientação médica. Se o alívio for insuficiente ou os sintomas voltarem depois da autoaplicação, a orientação é procurar atendimento; em adultos, as doses seguintes para a mesma crise devem ser aplicadas em serviço de saúde.
Segurança
O rótulo norte-americano não traz advertência em destaque (tarja) e informa que não há contraindicações. Na Europa, a contraindicação é a hipersensibilidade ao icatibanto ou a algum componente da fórmula; a bula brasileira, segundo a Conitec, acrescenta a idade inferior a 2 anos.
- Reações no local da injeção: ocorreram em 97% dos pacientes tratados nos estudos controlados por placebo, contra 33% com placebo, como vermelhidão, inchaço, dor, coceira, ardor e hematoma; em geral são leves a moderadas e passageiras.
- Outras reações: febre e aumento de transaminases (4% cada) e tontura (3%); também foram relatadas náusea, dor de cabeça e erupção na pele, e, após a comercialização, urticária.
- Coração e AVC: a bula europeia pede cautela em doença cardíaca isquêmica aguda ou angina instável e nas semanas seguintes a um AVC, por um efeito teórico do bloqueio do receptor B2.
- Interações: não se esperam interações pelo citocromo P450; a bula europeia lembra que os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ECA) são contraindicados em quem tem AEH, pelo possível aumento da bradicinina.
- Idosos: têm maior exposição ao medicamento no sangue; o rótulo da FDA não recomenda ajuste de dose.
- Gravidez e amamentação: dados publicados e de farmacovigilância não identificaram risco associado ao medicamento de malformações maiores ou aborto (FDA); a bula europeia orienta o uso na gravidez apenas se o benefício justificar o risco e recomenda não amamentar por 12 horas após a dose.
Crise na garganta exige atendimento imediato
A crise laríngea pode obstruir a passagem do ar. Mesmo depois da injeção, o paciente deve procurar atendimento imediato em serviço de saúde adequado, e a bula europeia recomenda observação em instituição médica até que o médico considere a alta segura.
Como funciona o acesso no Brasil
O icatibanto tem registro ativo na ANVISA em três produtos: o Firazyr (1.2627.0019, Takeda Farmacêutica Brasil), o genérico acetato de icatibanto (1.1541.0019, Cipla) e o similar Gulandaripa (1.1541.0023, Cipla), segundo consulta feita em 23/09/2026. Com registro ativo no país, inclusive de genérico e similar, a aquisição é feita no mercado brasileiro, e a importação não é o caminho para este medicamento. O acesso passa pelo SUS, pelo plano de saúde e, quando há negativa, pela discussão sobre o custeio.
No SUS: uso hospitalar durante a crise
Em 2015, a Conitec havia recomendado não incorporar o icatibanto. O tema voltou em 2023: no Relatório de Recomendação nº 861, a comissão recomendou a incorporação para crises de AEH tipos I e II, condicionada ao uso restrito hospitalar e ao protocolo do Ministério da Saúde. A decisão foi publicada na Portaria SECTICS/MS nº 68, de 20/12/2023, que deu às áreas técnicas até 180 dias para efetivar a oferta. Na mesma época, o inibidor de C1 esterase derivado do plasma humano, de uso intravenoso, também foi incorporado para as crises, igualmente restrito ao hospital.
Na prática, a incorporação prevê a aplicação no hospital, durante a crise, e não a entrega de seringas para o paciente guardar em casa. A lista de protocolos da Conitec ainda mostra como vigente o PCDT de 2016 (Portaria SAS/MS nº 880/2016), que prevê apenas o danazol, para prevenção das crises; a proposta de atualização, que inclui o icatibanto para pacientes em crise a partir de 2 anos, com uso hospitalar, passou por consulta pública em 2024.
No plano de saúde: uso em casa e custeio
A Lei 9.656/1998 exclui do plano-referência o fornecimento de medicamentos para tratamento domiciliar, ressalvadas as exceções previstas na própria lei (art. 10, inciso VI). Por isso, a cobertura da seringa para ter em casa não é automática. O caminho começa pelo relatório do médico assistente, com diagnóstico, histórico de crises e justificativa, e pelo pedido administrativo à operadora ou ao SUS. Se houver negativa, a discussão sobre quem paga pode ser levada à Justiça; nesse caso, trata-se de custeio de um medicamento registrado no país, e não de importação. Cada situação exige orientação médica e jurídica individualizada, sem garantia de resultado.
Perguntas Frequentes
O Firazyr serve para prevenir crises?
Não. Nas três agências, a indicação é o tratamento das crises agudas já instaladas. A prevenção de crises segue outras estratégias, definidas pelo médico.
Posso aplicar o icatibanto em casa?
Sim, depois de treinamento feito por profissional de saúde e com autorização do médico. Em crise laríngea, a injeção não dispensa a ida imediata a um serviço de saúde.
Quantas injeções posso usar numa mesma crise?
Em adultos, até três injeções de 30 mg em 24 horas, com pelo menos 6 horas entre elas; pela bula europeia, as doses seguintes da mesma crise são aplicadas em serviço de saúde.
Crianças podem usar icatibanto?
Na União Europeia e no Brasil, sim, a partir de 2 anos, com dose calculada pelo peso e aplicação por um cuidador treinado. Nos Estados Unidos, o Firazyr é indicado somente a partir de 18 anos.
Existe versão genérica no Brasil?
Sim. Além do Firazyr, a ANVISA registra o genérico acetato de icatibanto e o similar Gulandaripa, ambos da Cipla.
Conclusão
O Firazyr trouxe para as crises de angioedema hereditário uma injeção subcutânea que o próprio paciente, ou um cuidador treinado, pode aplicar ao reconhecer os sintomas. Nos estudos FAST, o alívio veio mais cedo do que com placebo e com ácido tranexâmico, embora no FAST-1 a diferença não tenha alcançado significância estatística. No Brasil, o medicamento é registrado, tem genérico e similar e foi incorporado ao SUS para uso hospitalar; o uso em casa depende de custeio pelo plano, pelo poder público ou pelo próprio paciente. O plano de ação para as crises deve ser definido com o médico que acompanha o caso.
Fontes
- FDA, rótulo de Firazyr (icatibanto) injeção (DailyMed), Takeda Pharmaceuticals America, versão 19 publicada em 07/2025; setid ed6657ca-ab68-477a-9968-e12dc928b540.
- FDA, Drugs@FDA — NDA 022150 (Firazyr), aprovação em 25/08/2011.
- EMA — Firazyr, EPAR e resumo das características do medicamento, EMEA/H/C/000899, titular Takeda Pharmaceuticals International AG.
- ANVISA — Consulta de medicamentos: Firazyr, registro 1.2627.0019, Takeda Farmacêutica Brasil Ltda, ativo, vencimento 12/2029, consulta em 23/09/2026.
- Conitec — Relatório de Recomendação nº 861: acetato de icatibanto para crises de angioedema hereditário por deficiência do inibidor da C1-esterase em pacientes com 2 anos ou mais, novembro de 2023.
- Ministério da Saúde — Portaria SECTICS/MS nº 68, de 20/12/2023 (DOU nº 243, seção 1, p. 180, 22/12/2023).
- Conitec — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Angioedema Hereditário associado à deficiência de inibidor de C1-esterase, versão preliminar para consulta pública, agosto de 2024.
- Ministério da Saúde — Portaria SAS/MS nº 880, de 12/07/2016 (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do angioedema associado à deficiência de C1 esterase).
- Brasil — Lei nº 9.656, de 03/06/1998, art. 10, inciso VI (texto compilado, planalto.gov.br).
- Cicardi M et al., N Engl J Med, 2010;363(6):532-541. PMID 20818888.
- Lumry WR et al., Ann Allergy Asthma Immunol, 2011;107(6):529-537. PMID 22123383.
- ClinicalTrials.gov NCT00912093 (FAST-3).
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