Resumo rápido
- Soliris (eculizumabe) é anticorpo monoclonal inibidor do complemento C5, por infusão intravenosa, indicado para hemoglobinúria paroxística noturna (HPN), síndrome hemolítica urêmica atípica (SHUa), miastenia gravis generalizada anti-AChR positiva e neuromielite óptica anti-AQP4 positiva.
- O rótulo da FDA traz alerta em tarja preta para infecção meningocócica grave e exige programa restrito de mitigação de risco antes do tratamento.
- No Brasil, o registro do Soliris está com a AstraZeneca do Brasil (1.1618.0304), até março de 2027; a titularidade anterior, da Alexion, consta inativa.
- Já existem biossimilares com registro ativo no Brasil: Bekemv (Amgen) e Epysqli (Samsung Bioepis), além do Herculiz (Bionovis).
- O SUS fornece eculizumabe para HPN por protocolo próprio; para SHUa, a CONITEC recomendou não incorporar o medicamento.
O que é Soliris (eculizumabe)?
Eculizumabe é anticorpo monoclonal humanizado IgG2/4 kappa que se liga com alta afinidade à proteína C5 do complemento. Comercializado como Soliris, é solução estéril e sem conservantes, em frasco-ampola de dose única de 30 mL (10 mg/mL, 300 mg), de uso exclusivamente intravenoso. É indicado em quatro doenças raras: hemoglobinúria paroxística noturna, síndrome hemolítica urêmica atípica, miastenia gravis generalizada refratária e neuromielite óptica.
Mecanismo de ação
O eculizumabe liga-se à proteína C5 do complemento, bloqueando sua clivagem em C5a e C5b e impedindo a formação do complexo de ataque à membrana C5b-9. Esse bloqueio interrompe a hemólise intravascular da HPN e a microangiopatia trombótica da SHUa. Na miastenia gravis, presume-se redução do depósito de C5b-9 na junção neuromuscular; na neuromielite óptica, inibição do depósito induzido pelos anticorpos antiaquaporina-4. Em ambos, o mecanismo preciso não está totalmente elucidado.
Indicações
- Hemoglobinúria paroxística noturna: redução da hemólise; a FDA não define piso etário na indicação, mas esclarece que a segurança em crianças não está estabelecida; a EMA reconhece uso em adultos e crianças.
- Síndrome hemolítica urêmica atípica: inibição da microangiopatia trombótica mediada pelo complemento, em adultos e crianças (FDA e EMA); não indicado para a síndrome associada à toxina Shiga de Escherichia coli.
- Miastenia gravis generalizada: anti-AChR positivo, a partir de 6 anos, pela FDA e pela EMA; nos EUA, a indicação pediátrica foi incluída em fevereiro de 2025, por suplemento à licença biológica.
- Neuromielite óptica: adultos anti-AQP4 positivos; a EMA especifica ainda curso recidivante.
Bekemv e Epysqli reproduzem as mesmas indicações, com uma diferença: neles, a miastenia gravis é só para adultos, sem a extensão pediátrica que o Soliris recebeu em 2025. Ambos confirmam biossimilaridade ao Soliris, sem menção a intercambialidade.
Evidências clínicas
Na HPN, o estudo pivotal TRIUMPH (NCT00122330), fase 3, randomizado e controlado por placebo, acompanhou 87 pacientes transfusão-dependentes por 26 semanas: estabilização da hemoglobina sem transfusão em 49% (21/43) com eculizumabe contra 0% (0/44) no placebo (p menor que 0,001); mediana de 0 unidades transfundidas contra 10; redução de 85,8% na área sob a curva de LDH (Hillmen et al., N Engl J Med, 2006;355(12):1233-1243. PMID 16990386).
Na SHUa, dois ensaios de fase 2 trataram 37 pacientes: 17 sensíveis à plasmaférese (NCT00838513, NCT00844428) e 20 resistentes (NCT00844545, NCT00844844). No primeiro, as plaquetas subiram em média 73 mil/µL até a semana 26 (p menor que 0,001), com diálise suspensa em 4 de 5; no segundo, 80% ficaram livres de eventos de microangiopatia trombótica (Legendre et al., N Engl J Med, 2013;368(23):2169-2181. PMID 23738544).
O estudo REGAIN, fase 3 (NCT01997229), randomizou 125 pacientes com miastenia gravis refratária (62 eculizumabe, 63 placebo) por 26 semanas: desfecho primário (variação do escore MG-ADL, analisada por postos) sem significância estatística (diferença de postos -11,7; IC95% -24,3 a 0,96; p=0,0698); secundários favoreceram o eculizumabe, com exacerbações em 10% contra 24% no placebo (Howard Jr et al., Lancet Neurology, 2017;16(12):976-986. PMID 29066163).
Na neuromielite óptica, o estudo PREVENT (NCT01892345) randomizou 143 adultos anti-AQP4 positivos, 2:1, em desenho de tempo até o primeiro evento; encerrado após 23 das 24 recidivas pré-especificadas, não por segurança. Recidiva em 3% (3/96) dos tratados contra 43% (20/47) no placebo, razão de risco 0,06 (IC95% 0,02-0,20; p menor que 0,001) (Pittock et al., N Engl J Med, 2019;381(7):614-625. PMID 31050279).
Posologia e administração
O Soliris é administrado exclusivamente por infusão intravenosa, nunca em bolus. Antes da primeira dose, exige-se vacinação meningocócica atualizada há pelo menos duas semanas, salvo quando adiar o tratamento for mais arriscado que a infecção – caso em que se institui profilaxia antibacteriana até a vacinação.
Em adultos com HPN, a dose é 600 mg semanais por 4 semanas, 900 mg na quinta dose e 900 mg a cada 2 semanas depois. Para SHUa, miastenia gravis e neuromielite óptica em adultos, são 900 mg semanais por 4 semanas, 1.200 mg na quinta dose e 1.200 mg a cada 2 semanas na manutenção. Em crianças com SHUa (menores de 18 anos) ou miastenia gravis (a partir de 6 anos), a dose é ajustada por peso corporal, de 300 mg a 1.200 mg conforme a faixa. A infusão dura 35 minutos em adultos e de 1 a 4 horas em crianças, com monitoramento de ao menos 1 hora após.
Segurança
O rótulo da FDA traz alerta em tarja preta para infecções meningocócicas graves: o uso de Soliris aumenta o risco de infecção invasiva por Neisseria meningitidis, mesmo após vacinação. Nos EUA, o medicamento só está disponível por programa restrito de mitigação de risco, com cadastro do prescritor e cartão de alerta portado durante o tratamento e por três meses após a última dose.
A única contraindicação é iniciar o tratamento com infecção não resolvida por Neisseria meningitidis. As advertências principais incluem risco de infecções por outras bactérias encapsuladas (Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae tipo b, Neisseria gonorrhoeae) e por Aspergillus em imunocomprometidos; monitoramento após a suspensão (8 semanas na HPN; 12 na SHUa, pelo risco de microangiopatia); e reações à infusão, incluindo anafilaxia, com interrupção imediata diante de instabilidade cardiovascular ou respiratória.
Sobre gravidez, o rótulo já não usa as antigas categorias de risco, hoje abolidas; dados de mais de 300 gestações não identificaram sinal específico de risco, e estudos em camundongos com anticorpo análogo mostraram anormalidades de desenvolvimento em doses de 2 a 8 vezes a humana. Sem detecção no leite humano, a decisão de amamentar deve considerar a necessidade clínica da mãe.
Como funciona o acesso no Brasil
O Soliris tem registro ativo na ANVISA (1.1618.0304, biológico), com a AstraZeneca do Brasil, até março de 2027; o registro anterior, da Alexion (1.9811.0001), consta inativo. É comercializado no país sob prescrição médica, e o acesso não depende de importação – o caminho varia conforme a indicação.
Para a HPN, o eculizumabe foi incorporado ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 77/2018 (Relatório CONITEC nº 413), com Protocolo Clínico aprovado pela Portaria Conjunta nº 18/2019 e fornecimento por hospitais de referência – o paciente não compra o medicamento. Em 2021, diante do alto custo, a CONITEC reavaliou o caso e, após consulta pública, decidiu pela não exclusão (Relatório nº 659; Portaria SCTIE/MS nº 61, de 9 de setembro de 2021), mantendo o fornecimento público.
Já para a SHUa, a CONITEC recomendou não incorporar o eculizumabe ao SUS, por incertezas sobre o benefício frente ao elevado impacto orçamentário (Relatório nº 483/Sociedade nº 160; Portaria SCTIE/MS nº 56/2019). Para miastenia gravis e neuromielite óptica, não há protocolo do SUS para o medicamento; a aquisição é nacional, por prescrição médica, e dificuldade de custeio pelo SUS ou negativa de plano de saúde pode levar à orientação médica e jurídica sobre custeio – diferente de importação. O Rol da ANS cobre obrigatoriamente o ravulizumabe (outro inibidor de C5) para HPN acima de 14 anos, mas não o eculizumabe em si.
Perguntas Frequentes
O tratamento com Soliris é contínuo?
Sim. O eculizumabe controla a hemólise e a microangiopatia trombótica mediadas pelo complemento enquanto é administrado, e o uso é contínuo nas quatro condições tratadas, sob prescrição e acompanhamento médico.
Existem biossimilares do Soliris no Brasil?
Sim. Bekemv (Amgen) e Epysqli (Samsung Bioepis) têm registro ativo na ANVISA como biológicos. Nos EUA, a FDA reconhece a biossimilaridade de ambos ao Soliris; no Brasil, a base da ANVISA confirma o registro como biológico, cabendo à equipe médica avaliar a conduta em cada caso.
Crianças podem receber Soliris?
Depende. Na miastenia gravis, a bula americana autoriza uso a partir de 6 anos; na SHUa, há esquema pediátrico por peso; na HPN e na neuromielite óptica, a bula americana não estabelece segurança em crianças, enquanto a europeia reconhece uso pediátrico para a HPN.
O SUS fornece Soliris gratuitamente?
Para HPN, sim, por protocolo próprio e fornecimento em hospitais de referência. Para SHUa, miastenia gravis e neuromielite óptica, o eculizumabe não está incorporado ao SUS.
Conclusão
O Soliris consolidou papel de destaque no tratamento de quatro doenças raras mediadas pelo complemento. A chegada de biossimilares como Bekemv, Epysqli e, mais recentemente, Herculiz amplia as opções ligadas à mesma molécula sob registro ativo na ANVISA. No Brasil, o acesso varia conforme a indicação – fornecimento público pelo SUS para a HPN, aquisição nacional nas demais – sempre sob prescrição médica, com atenção ao risco de infecção meningocócica grave típico dessa classe.
Fontes
- DailyMed — rótulo de Soliris (eculizumabe), Alexion Pharmaceuticals, BLA 125166, revisão 02/2025.
- FDA — carta de aprovação do suplemento BLA 125166/S-448 (miastenia gravis generalizada a partir de 6 anos), 28/02/2025.
- DailyMed — rótulo de Bkemv (eculizumabe-aeeb), Amgen, biossimilar do Soliris.
- DailyMed — rótulo de Epysqli (eculizumabe-aagh), Samsung Bioepis, biossimilar do Soliris.
- EMA — Resumo das Características do Medicamento de Soliris, EU/1/07/393/001, Alexion Europe SAS.
- ANVISA — consulta à base de medicamentos em 18/09/2026: Soliris (1.1618.0304), Bekemv (1.0244.0024), Epysqli (1.5921.0007) e Herculiz (1.4531.0006).
- CONITEC — Relatório de Recomendação nº 413/2018 (eculizumabe na HPN).
- Ministério da Saúde — Portaria SCTIE/MS nº 77/2018 (incorporação do eculizumabe ao SUS para HPN).
- Ministério da Saúde — Portaria Conjunta nº 18/2019 (PCDT da hemoglobinúria paroxística noturna).
- CONITEC — Relatório de Recomendação nº 659/2021 (reavaliação, com decisão de não exclusão).
- Ministério da Saúde — Portaria SCTIE/MS nº 61, de 09/09/2021.
- CONITEC — Relatório de Recomendação nº 483/2019 (SHUa, recomendação de não incorporação).
- Ministério da Saúde — Portaria SCTIE/MS nº 56/2019.
- ANS — Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, DUT 65.19 (RN nº 604/2024).
- ClinicalTrials.gov — NCT00122330 (TRIUMPH, fase 3).
- Hillmen P et al., N Engl J Med, 2006;355(12):1233-1243. PMID 16990386.
- ClinicalTrials.gov — NCT00838513, NCT00844428, NCT00844545 e NCT00844844 (SHUa, fase 2).
- Legendre CM et al., N Engl J Med, 2013;368(23):2169-2181. PMID 23738544.
- ClinicalTrials.gov — NCT01997229 (REGAIN, fase 3).
- Howard JF Jr et al., Lancet Neurol, 2017;16(12):976-986. PMID 29066163.
- ClinicalTrials.gov — NCT01892345 (PREVENT, fase 3).
- Pittock SJ et al., N Engl J Med, 2019;381(7):614-625. PMID 31050279.
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