Jelmyto e Zusduri (mitomicina): acesso por importação

Resumo rápido

  • A Mitomicina é um antibiótico antineoplásico citotóxico utilizado no tratamento de diversos tipos de câncer.
  • Seu mecanismo de ação baseia-se na alquilação do DNA, com inibição da síntese de DNA e RNA das células tumorais.
  • É indicada principalmente para câncer de bexiga (carcinoma urotelial), câncer gástrico e câncer de pâncreas.
  • É isolada da bactéria Streptomyces caespitosus e administrada, em geral, por via injetável ou intravesical.
  • No Brasil, é um medicamento de alto custo, coberto pelo SUS em situações específicas mediante avaliação clínica.

O que é a Mitomicina?

A mitomicina existe hoje em três formas distintas, que não devem ser confundidas. A forma injetável clássica (Mutamycin, da Bristol) é de uso sistêmico no adenocarcinoma de estômago e de pâncreas, em associação — e está disponível no Brasil como mitomicina genérica. O Jelmyto é uma formulação em gel de instilação pielocalicial, aprovada pela FDA em 2020 para o câncer urotelial de trato superior de baixo grau. Já o Zusduri (UGN-102) é uma solução intravesical, aprovada pela FDA em 2025 para o câncer de bexiga não músculo-invasivo de baixo grau e risco intermediário recorrente. O estudo OLYMPUS (Kleinmann N e colaboradores, Lancet Oncology, 2020) avaliou o UGN-101, que deu origem ao Jelmyto — não ao Zusduri.

Como a Mitomicina atua no combate ao câncer?

A Mitomicina atua por meio da alquilação do DNA, formando ligações cruzadas entre as fitas da molécula. Esse efeito interrompe a replicação do DNA e a transcrição do RNA nas células tumorais. Como consequência, ocorre a indução de apoptose, ou seja, a morte celular programada das células afetadas. Um aspecto característico do composto é que ele requer redução metabólica dentro da célula para se converter em agente alquilante ativo, o que confere seletividade parcial ao seu mecanismo.

Indicações da Mitomicina: para quais cânceres é prescrita?

A Mitomicina é prescrita para diferentes neoplasias, com destaque para o câncer de bexiga do tipo carcinoma urotelial, no qual é utilizada por via intravesical em tumores superficiais, também descritos como não músculo-invasivos. No câncer gástrico, integra com frequência esquemas de quimioterapia combinada. No câncer de pâncreas, é empregada em associação a outros agentes. Entre outras indicações descritas estão o câncer de mama, o câncer de pulmão de não pequenas células, o câncer cervical e o câncer hepático. A decisão sobre a indicação depende do tipo tumoral, do estadiamento e do esquema terapêutico definido pela equipe médica.

Evidências clínicas e eficácia da Mitomicina

A Mitomicina injetável (Mutamycin) tem uso oncológico estabelecido e conta com registro junto ao FDA por meio de NDA específica. Uma reformulação em gel (UGN-101/Jelmyto) foi avaliada no estudo pivô OLYMPUS, um ensaio de fase 3 aberto e de braço único, com 71 pacientes na população por intenção de tratar, voltado ao câncer urotelial de trato superior de baixo grau (LG-UTUC), com taxa de resposta completa em torno de 58% a 59% aos três meses. Esse estudo embasou a aprovação do Jelmyto pelo FDA e teve seus resultados publicados na literatura científica. As taxas de resposta variam conforme o tipo de câncer e o esquema de tratamento adotado. [1][2][3]

Mitomicina em comparação com outras terapias oncológicas

Aspecto Mitomicina injetável (Mutamycin) Mitomicina em gel (Jelmyto/UGN-101)
Via de administração Intravenosa ou intravesical Instilação local em gel
Contexto de uso Câncer de bexiga, gástrico, de pâncreas e outros, muitas vezes em esquemas combinados Câncer urotelial de trato superior de baixo grau (LG-UTUC)
Base de aprovação regulatória Registro histórico junto ao FDA Estudo pivô OLYMPUS de fase 3, braço único
Diferencial Perfil de toxicidade e mecanismo alquilante próprios Formulação que permite contato local prolongado com o tumor

Segurança e efeitos adversos da Mitomicina

A Mitomicina apresenta um perfil de segurança que exige monitoramento cuidadoso. A mielossupressão é um efeito comum, podendo manifestar-se como anemia, leucopenia e trombocitopenia. Entre as toxicidades renais, há relato raro de síndrome hemolítico-urêmica (SHU). A toxicidade pulmonar, na forma de fibrose, é um efeito adverso grave, porém incomum. Náuseas e vômitos figuram entre os efeitos gastrointestinais comuns e costumam ser controlados com antieméticos. Há ainda o risco de extravasamento durante a infusão, que pode provocar necrose tecidual caso ocorra vazamento para fora da veia. O acompanhamento laboratorial e clínico é parte essencial do tratamento.

Perguntas Frequentes

A Mitomicina é um medicamento de alto custo?

Sim. Trata-se de um medicamento de alto custo, coberto pelo SUS em casos específicos e, em muitas situações, por planos de saúde, conforme critérios de indicação clínica.

Como é feito o acesso à Mitomicina no SUS ou em planos de saúde?

O acesso costuma ocorrer por meio de protocolos clínicos e aprovação de comissões médicas, mediante prescrição e laudo. Quando o fornecimento é negado, alguns pacientes recorrem a tratamentos judiciais, incluindo a compra judicial do medicamento, sempre a partir de orientação profissional e jurídica.

Qual é o objetivo do tratamento com Mitomicina?

O objetivo do tratamento é o controle da doença, a possibilidade de remissão ou o aumento da sobrevida, conforme o tipo de câncer, o estadiamento e o esquema terapêutico definido pela equipe médica.

A Mitomicina pode ser usada em crianças?

O uso em pediatria é limitado e deve ser avaliado de forma criteriosa, devido ao perfil de toxicidade do medicamento.

Existe alguma restrição alimentar durante o tratamento com Mitomicina?

Não há restrições alimentares específicas descritas, mas uma dieta equilibrada e o acompanhamento nutricional são recomendáveis durante o tratamento.

Conclusão: o papel da Mitomicina na oncologia moderna

A Mitomicina mantém um papel relevante no tratamento de determinados cânceres, com destaque para o câncer de bexiga superficial. Os principais desafios envolvem o manejo dos efeitos adversos e a otimização dos regimes combinados. As pesquisas seguem explorando novas aplicações e formulações, como a versão em gel voltada ao câncer urotelial de trato superior de baixo grau, com o intuito de aumentar a eficácia e reduzir a toxicidade. A escolha pelo uso da Mitomicina deve ser sempre individualizada e baseada em evidências, considerando o quadro clínico de cada paciente e a orientação da equipe assistente.

Fontes

  1. [1] FDA — NDA 050450 (Mutamycin) (Mutamycin (marca de referência histórica do injetável nos EUA); reformulações de marca atuais: Jelmyto (mitomicina em gel pielocalicial) e Zusduri/UGN-102 (intravesical). No Brasil, comercializado como ‘Mitomicina C’ / histórico ‘Mitocin’, Bristol Laboratories Inc.)
  2. [2] ClinicalTrials.gov — NCT02793128
  3. [3] Kleinmann N, Matin SF, Pierorazio PM, et al. Primary chemoablation of low-grade upper tract urothelial carcinoma using UGN-101, a mitomycin-containing reverse thermal gel (OLYMPUS): an open-label, single-arm, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2020;21(6):776-785. (PMID 32631491)

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