Resumo rápido
- Fetroja é o nome comercial do cefiderocol, uma cefalosporina siderófora da classe dos beta-lactâmicos.
- Atua contra bactérias Gram-negativas aeróbias, incluindo cepas multirresistentes.
- O cefiderocol usa um mecanismo do tipo “cavalo de Troia”: liga-se ao ferro e é transportado ativamente para dentro da bactéria.
- Nos EUA é indicado, em pacientes de 18 anos ou mais, para infecção urinária complicada e para pneumonia hospitalar ou associada à ventilação, por organismos suscetíveis nomeados em bula.
- Na União Europeia, sob o nome Fetcroja, a indicação é mais ampla: infecções por Gram-negativos aeróbios em adultos com opções terapêuticas limitadas.
- A bula traz advertência sobre aumento de mortalidade observado em pacientes críticos com infecções resistentes a carbapenêmicos.
O que é Fetroja (cefiderocol)?
Fetroja é um medicamento antibacteriano cujo princípio ativo é o cefiderocol. Trata-se de uma cefalosporina siderófora, projetada para superar múltiplos mecanismos de resistência em bactérias Gram-negativas. O produto é fabricado pela Shionogi & Co., Ltd., em Osaka, no Japão; nos Estados Unidos a titularidade do registro é da Shionogi Inc., e na União Europeia, da Shionogi B.V., onde o produto é comercializado como Fetcroja. Conta com aprovação do FDA sob a aplicação NDA 209445 e com autorização de comercialização na União Europeia concedida em 23 de abril de 2020. No Brasil, a situação de registro junto à ANVISA deve ser verificada diretamente na agência; quando o medicamento não está disponível no país, o acesso pode se dar por importação, mediante prescrição e avaliação médica. [1][8]
Como o cefiderocol funciona?
O cefiderocol atua por um mecanismo sideróforo: a molécula se liga ao ferro férrico livre no meio extracelular e, além da difusão passiva pelos canais de porina, é transportada ativamente para o espaço periplasmático da bactéria pelo sistema de captação de ferro do próprio micro-organismo. Uma vez dentro, o cefiderocol exerce ação bactericida ao inibir a biossíntese da parede celular por ligação às proteínas de ligação à penicilina (PBPs).
Segundo a seção de microbiologia da bula, o cefiderocol demonstrou atividade in vitro contra subgrupos de Enterobacterales que contêm ESBLs, AmpC, serina-carbapenemases como KPC e OXA-48 e metalo-carbapenemases como NDM e VIM, e manteve atividade in vitro na presença de deleções de porina e de bombas de efluxo hiperexpressas. Esses dados são laboratoriais: a bula registra separadamente quais infecções clínicas o produto está autorizado a tratar. [1]
Para quem Fetroja é indicado?
A indicação varia conforme a agência reguladora, e as duas não devem ser confundidas.
Estados Unidos (FDA). Fetroja é indicado em pacientes de 18 anos ou mais para:
- Infecções do trato urinário complicadas, incluindo pielonefrite, causadas por Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis, Pseudomonas aeruginosa e Enterobacter cloacae complex suscetíveis;
- Pneumonia bacteriana hospitalar e pneumonia associada à ventilação, causadas por Acinetobacter baumannii complex, Escherichia coli, Enterobacter cloacae complex, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa e Serratia marcescens suscetíveis.
A bula não estabeleceu segurança e eficácia em pacientes com menos de 18 anos.
União Europeia (EMA). Sob o nome Fetcroja, a indicação autorizada é o tratamento de infecções causadas por organismos Gram-negativos aeróbios em adultos com opções terapêuticas limitadas, recomendando-se consulta a um médico com experiência em doenças infecciosas. [1][8]
Estudos clínicos de Fetroja
O estudo APEKS-cUTI (NCT02321800) foi um ensaio de fase 2, multinacional, duplo-cego e de não inferioridade, que comparou cefiderocol a imipenem-cilastatina em 448 adultos hospitalizados com infecção urinária complicada. No desfecho composto de erradicação microbiológica e resposta clínica na visita de teste de cura, as taxas foram de 72,6% com cefiderocol contra 54,6% com imipenem-cilastatina; no desfecho microbiológico isolado, 73,0% contra 56,3%. A resposta clínica isolada foi semelhante entre os grupos (89,7% contra 87,4%). Esse estudo fundamentou a aprovação do FDA na indicação urinária. [2][3]
O estudo APEKS-NP (NCT03032380) foi um ensaio de fase 3, duplo-cego e de não inferioridade, que comparou cefiderocol a meropenem em dose alta e infusão estendida em pacientes com pneumonia nosocomial por Gram-negativos. Todos os participantes receberam linezolida para cobertura empírica de Gram-positivos. O cefiderocol foi não inferior quanto à mortalidade por todas as causas em 14 dias (12,4% contra 12,2%). [4][5]
O estudo CREDIBLE-CR (NCT02714595) foi um ensaio de fase 3, aberto, multicêntrico e dirigido por patógeno, em pacientes críticos com infecções por Gram-negativos resistentes a carbapenêmicos, comparando cefiderocol à melhor terapia disponível. Observou-se maior mortalidade por todas as causas no grupo cefiderocol, achado que originou a advertência incluída na bula. Os três estudos sustentaram a autorização de comercialização na União Europeia. [6][7][8]
Fetroja frente a outros beta-lactâmicos
| Aspecto | Fetroja (cefiderocol) | Beta-lactâmicos convencionais |
|---|---|---|
| Entrada na bactéria | Transporte ativo via captação de ferro, além de difusão por porinas | Difusão por porinas da membrana externa |
| Beta-lactamases (KPC, NDM, OXA-48) | Atividade in vitro descrita frente a subgrupos que contêm essas enzimas | Frequentemente hidrolisados |
| Espectro | Gram-negativos aeróbios, incluindo resistentes a carbapenêmicos | Atividade variável nesses patógenos |
| Atividade contra Gram-positivos | Sem atividade in vitro clinicamente relevante | Depende do agente |
| Via de administração | Exclusivamente intravenosa | Variável |
Segurança e efeitos colaterais de Fetroja
A bula separa as reações adversas por indicação. Nos estudos de infecção urinária complicada, as mais frequentes (incidência igual ou superior a 2%) foram diarreia, reações no local da infusão, constipação, rash, candidíase, tosse, elevações em provas de função hepática, cefaleia, hipocalemia, náusea e vômito. Nos estudos de pneumonia hospitalar e associada à ventilação, as mais frequentes (incidência igual ou superior a 4%) foram elevações em provas hepáticas, hipocalemia, diarreia, hipomagnesemia e fibrilação atrial.
A bula traz quatro advertências principais: aumento da mortalidade por todas as causas em pacientes com infecções por Gram-negativos resistentes a carbapenêmicos; reações de hipersensibilidade graves e ocasionalmente fatais; diarreia associada a Clostridioides difficile; e convulsões e outras reações do sistema nervoso central. Fetroja é contraindicado em pacientes com histórico conhecido de hipersensibilidade grave ao cefiderocol, a outros beta-lactâmicos ou a qualquer componente da formulação. [1]
Quanto à advertência de mortalidade, os números da bula, provenientes do estudo aberto em pacientes críticos, são: mortalidade por todas as causas em 28 dias de 24,8% no grupo cefiderocol contra 18,4% na melhor terapia disponível, e 33,7% contra 20,4% até o dia 49. A causa do aumento não foi estabelecida, e a bula orienta monitorar de perto a resposta clínica. [1][7]
Perguntas Frequentes
Fetroja é eficaz contra bactérias Gram-positivas como o MRSA?
Não. O cefiderocol não apresenta atividade in vitro clinicamente relevante contra a maioria das bactérias Gram-positivas e anaeróbias, e não é indicado para essas infecções.
Como Fetroja é administrado?
Exclusivamente por infusão intravenosa, em ambiente hospitalar com supervisão profissional. O pó liofilizado precisa ser reconstituído e diluído antes da administração.
Qual é a dose usual de cefiderocol?
Em adultos com clearance de creatinina entre 60 e 119 mL/min, a bula recomenda 2 gramas a cada 8 horas, em infusão intravenosa de 3 horas. Há ajuste obrigatório de dose para clearance abaixo de 60 mL/min, incluindo pacientes em hemodiálise ou terapia renal substitutiva contínua, com redução escalonada até 0,75 grama a cada 12 horas. Para clearance igual ou superior a 120 mL/min, a recomendação é de 2 gramas a cada 6 horas. A duração usual do tratamento é de 7 a 14 dias, guiada pela evolução clínica.
Fetroja pode ser usado em crianças?
A segurança e a eficácia em pacientes com menos de 18 anos não foram estabelecidas na bula aprovada.
Qual é o objetivo do tratamento com Fetroja?
O controle da infecção bacteriana, com erradicação do patógeno e resolução clínica, em quadros causados por Gram-negativos suscetíveis dentro das indicações aprovadas. Como todo antibacteriano, deve ser usado apenas em infecções comprovadas ou fortemente suspeitas de origem bacteriana, para preservar sua eficácia.
Quem é o fabricante de Fetroja?
O produto é fabricado pela Shionogi & Co., Ltd., em Osaka, no Japão. Nos Estados Unidos, a titularidade do registro é da Shionogi Inc.; na União Europeia, da Shionogi B.V.
Como funciona o acesso ao Fetroja no Brasil?
O acesso depende da situação regulatória do produto junto à ANVISA, que deve ser verificada diretamente na agência, e da avaliação médica do caso. Quando o medicamento não está disponível comercialmente no país, o acesso pode se dar por importação. Em determinadas situações pacientes recorrem à via judicial, o que exige orientação de profissional de saúde e de assessoria jurídica.
O papel de Fetroja na luta contra a resistência
O cefiderocol representa uma opção adicional no arsenal contra bactérias Gram-negativas multirresistentes, uma ameaça crescente à saúde global. Seu mecanismo de entrada pela captação de ferro permite contornar barreiras que limitam outros beta-lactâmicos, o que o torna relevante para pacientes com infecções graves e poucas alternativas. Diante da advertência sobre mortalidade observada em pacientes críticos e da restrição das indicações aprovadas a organismos específicos, o uso criterioso, a indicação adequada, a cultura com antibiograma e a vigilância dos efeitos são essenciais para a segurança do paciente e para preservar a eficácia do medicamento.
Fontes
- [1] FDA — NDA 209445 (FETROJA, Shionogi Inc.). Bula vigente, revisão 3/2026, disponível no DailyMed.
- [2] ClinicalTrials.gov — NCT02321800 (APEKS-cUTI).
- [3] Portsmouth S, van Veenhuyzen D, Echols R, Machida M, Arjona Ferreira JC, Ariyasu M, Tenke P, Nagata TD. Lancet Infect Dis. 2018;18(12):1319-1328. PMID 30509675.
- [4] ClinicalTrials.gov — NCT03032380 (APEKS-NP).
- [5] Wunderink RG, Matsunaga Y, Ariyasu M, Clevenbergh P, Echols R, Kaye KS, et al. Lancet Infect Dis. 2021;21(2):213-225. PMID 33058798.
- [6] ClinicalTrials.gov — NCT02714595 (CREDIBLE-CR).
- [7] Bassetti M, Echols R, Matsunaga Y, Ariyasu M, Doi Y, Ferrer R, et al. Lancet Infect Dis. 2021;21(2):226-240. PMID 33058795.
- [8] EMA — Fetcroja (cefiderocol), EPAR, autorização de comercialização de 23/04/2020, titular Shionogi B.V., status Autorizado.
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